27.5.04
Paisagem Noturna
São fragilidades que tornam o tempo cíclico.
Esse tempo - o ponto em que não me dessensibilizo da sua presençamemória.
Olho o sem-fim pela noite escura,
sutís lembranças e mistérios,
Inquérito interno,
(a saudade é um tipo de contentamento)
e me regozijo em certa hora
sobre os olhares encontrados
e os sorrisosflores aos montes,
a chuva da pele e o calor do corpo.
Ainda leio o seu horóscopo no jornal
(nem ligo para o que ele diz)
como um cuidado,
uma forma de contato ou minha superstição.
A melodia aquática da chuva que se choca contra os objetos
(como são concretos!
e como é líquida a minha lembrança, embora densa),
o vento sub-reptício penetrando os poros da minha pele solitária,
o som tênue da tv
e os roncos distantes dos motores incansáveis dos carros,
tudo isso, e meu olhar perdido, se relaciona e é uma só coisa.
Postado por Babe Lavenère Bastos
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17.5.04
- De quem é essa perna? E esse braço? Tá tudo tão entrelaçado.
- Peraí, levanta aqui um pouco pra eu poder coçar meu pé. Me ajuda aqui. Isso, ai que bom!
- Meu braço travesseiro tá meio dormente...
- Se quiser, põe pro outro lado pra descansar. Peraí que tá puxando meu cabelo, ai. Pronto. Xô colocar meu cabelo pra cima, assim você não puxa mais.
- Mas seu cabelo tá fazendo cócegas no meu nariz!
- Ai jisuix, calmaê. Assim tá legal?
- Tá, ficou ótimo.
- E esse meu braço que tá sobrando? De vez em quando imagino como seria ótimo se os braços fossem encaixáveis e removíveis - esse que fica embaixo, não sei se ponho pra trás ou pra frente, mas pra frente fica muito tronxo! Achei! Assim tá maravilhoso. Ih, caiu o edredon, e agora?
- Putz, vamos ver se a gente pega - estica a mão aí, tá quase, hhhrrrrrrrrr, deu. Mas põe ele pra lá.
- Você tá com calor? Eu tou com frio!
- Ah, eu te esquento, não vamos nos cobrir não, please!
- Mas eu gosto tanto de ficar coberta... Tá, tudo bem, então me esquenta muito.
Pô, mas se você me apertar assim eu fico sem ar!
- Meroiô?
- Assim tá bem melhor.
- Chega um pouco pra lá que eu tou na beira da cama.
Agora sim. Hmmm, essa posição tá perfeita: não se mexa!
- Mas agora eu quero fazer xixi...
Postado por Babe Lavenère Bastos
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14.5.04
A Leveza e o Peso
Ele não a via tinha tempo. Só de pensar num encontro tremia nas bases, mas todos os dias imaginava a cena: ela vinha caminhando de lá e ele de cá, e casualmente se esbarravam. No pensamento, a situação era exata - todas as palavras e expressões do seu rosto e do seu corpo - irretocável.
Bom, mas na realidade, se acontecesse, provavelmente ele se sentiria idiotizado, sem saber o que dizer, onde meter as mãos e mesmo em que lado do rosto dela dar um beijo de cumprimento - o que levaria àquele constrangimento de os dois irem para o mesmo lado ou coisa parecida, que é terrível quando se está inseguro. Além do mais, encontrá-la em qualquer situação não seria uma verdadeira surpresa, nem pareceria casual para ele, que estava sempre na premência de encontrá-la, que pensava diariamente em vê-la por aí.
Ela o perseguia. Punha seus olhos sobre ele, que tinha suas atitudes, de certa forma, gabaritadas por aquilo que ele imaginava que ela faria - compreendeu isso quando lera A Insustentável Leveza do Ser, o livro que insistia em permanecer na cabeceira de sua cama. O julgamento dela a que ele mesmo se submetia e a cena do encontro imaginado se repetiam tantas vezes que ele já não suportava mais. Estava preso, fingia a espontaneidade que lhe escapava e a naturalidade desse não-ser. Ele se sentia desfigurado. Desfigurava-se a imaginação que ele tinha do seu próprio rosto quando pensava no encontro e quando sentia aqueles olhos invisíveis a lhe fitar.
Um dia, inacreditavelmente, o encontro aconteceu exatamente como ele sempre imaginara, e cansado por aquele eterno retorno, sem nenhum ar de surpresa e com um olhar impaciente, inadivertidamente argüiu: - Deixe-me em paz! Pare de me perseguir, você me sufoca!
Ela pensou que ele era louco e ele sentiu que estava livre, enfim.
Postado por Babe Lavenère Bastos
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