27.6.05
Olho para o quarto, os objetos, o quadro na parede, livros, caixas, papéis, roupas, cortinas, o pandeiro, a pasta vermelha - tudo tão imóvel que parece que o tempo está parado. Mas ontem as cortinas do meu quarto pareciam as velas de um barco estufadas pelo vento. O friozinho fazia-me sentir ao ar livre. O barulho das folhagens das árvores roçando-se me levaram ao longe. Onde, não sei. Mas aquele longe delicioso de estar, como se longe chegasse mais perto de mim. Esse quarto tem humores...
Tudo aqui dentro está estático - há de movimento apenas o soar dos carros que passam de quando em vez lá fora. Até minha luz de cabeceira é estacionária e uniforme, não oscila um momento sequer. Está tudo à velocidade da luz, estático aos meus sentidos. Só eu me mexo. Com tudo estático à volta, vejo e sinto o movimento da minha respiração, o seu som, até posso ouvi-lo se procurar por isso. Volta e meia pisco os olhos. Escrevo. Este é o movimento. E sei que sangue corre em minhas veias e que meu coração o bombeia e que neste instante se dão várias sinapses em meu cérebro. O movimento interno, quase metafísico à minha impressão. O mundo de dentro, totalmente espontâneo. Aqui fora nem se move o ar, a não ser o que sorvo e expiro.
Essa imobilidade das coisas me permite diversos sentimentos. A solidão me tem sido boa quando é real. Estou só com os meus pensamentos. Queria ouvir um barulho de vento a assobiar em janelas e paredes de vidro num prédio que dá para a beira do mar. Então fecharia os olhos um momento e sorriria. Talvez chorasse e soluçasse um pouco. E depois sentiria frio. Buscaria um cobertor e me sentaria numa cadeira com as pernas encolhidas para contemplar o mar noturno, daí, sentiria o oposto do que meu quarto me mostra hoje. Perceberia que tudo tem movimento e, assim, com esse movimento - ondas, vento, palhas de coqueiro sacudindo-se, uma solitária alma a passar de bicicleta lá embaixo - eu me sentiria estática feito a luz de minha lâmpada fria.
Essa era a casa de minha avó, onde o vento uivava e onde eu me sentia anoitecida quando vinha a noite e as pessoas se iam. Ficava olhando através dos vidros das janelas daquele quinto andar o mar a balançar-se e, de vez em quando, a água enluarada. Agora percebo que vejo tudo isso daqui onde o tempo parou. E a estátua do meu quarto pode ter barulho das ondas e cheiro de maresia. Movimento, paralisia, pausa, som, melancolia.
(Mais um requentado. Não queria colocar algo tão melancólico, mas lembrar do espaço que era o de minha avó, belamente e agradavelmente significado por ela, é sempre tão bom e é feliz. Dona Maiza, bela. A saudade é um tipo de contentamento...)
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22.6.05
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10.6.05
Tenho a impressão de estar esquecendo alguma coisa.
Quando eu sinto isso, olho minha bolsa, meu casaco, meus brincos grandes de sempre.
Estão todos comigo.
Mas a sensação de que alguma coisa ficou pra trás continua.
Você sabe o que é sentir isso?
Sabe quando está tudo certo e você sente que está faltando alguma coisa?
Quando alguma coisa que não se sabe o que é está fazendo falta?
Quando o ser e o estar, de alguma forma, parecem insuficientes?
Vasculho a minha lembrança e o meu esquecimento.
E eu com esse gosto doce na boca. E, no corpo, certo entorpecimento de ter te tocado a pele a noite inteira, ao mesmo tempo sinto essa tristeza da despedida.
Tenho a impressão de ter esquecido meu coração na sua cama.
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8.6.05
Recebi uma carta-conto-encanto-lindeza. E eu ouvindo um jazz mais lindo do Grappelli com o Reinhardt enquanto leio cada palavra com a maior dedicação. Perfeição existe. O envelope - eu o vejo azul, mas eu finjo que é verde e ele é verde. Ainda bem que você escreveu com sua letra no envelope porque fica mais de carne e osso. Adorei tudo, a letra da máquina de escrever que torna a carta tão mais especial, e, inclusive, os dois pontos que você colocou a lápis. Quando eu crescer saberei novamente escrever cartas, e, principalmente, ser valente pra enfrentar o monstro de várias cabeças que há nos correios. Desconfio que neste dia o monstro terá asas de caramelo e drops vermelhos flutuantes em volta, daí já não será mais monstro e eu já não terei mais medo dele.
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6.6.05
Retalho Retrato Relato
Encontrei, ontem, o meu amor.
Eu tou aqui, mas me ausento, desculpem.
Não sei o que dizer, nunca soube.
De vez em quando escrevo umas coisas vindas não sei de onde.
Eu nunca soube escrever, nem sei ler.
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De novo o pêndulo de mim: acanhada, assanhada, acanhada, assanhada.
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Tua carne esporádica não me basta.
Quero transbordamento.
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Para meu amigo Davi.
Do infinito eu só sei dizer que de alguma forma eu o sinto. Vislumbro-o de uma maneira afetiva. Esse infinito pra qualquer direção - como desenhar para ele uma rosa dos ventos que não tenha direções apenas do centro para fora, mas que tenha pétalas, ou tentáculos, infinitas também pra dentro dela?
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E um xote lá de outra data:
Faz de conta não tem não.
Tem conta que se faz.
Multidão dói, sem alma.
Solita, solita. Sola, sola.
Sola da palma da mão.
Quando pisa é sertão, capoeira.
Sola de solo de chão
Vermelho de cerrado liquidando o coração.
Terra vermelha de barro sem água, poeira, sem mágoa.
Sempre soube sonhar. Olhar de moça. Pensando. Amando. Desejando.
Hoje já é época vindoura. Tem gente não. Tem jeito não.
Muda meu visível nada sonho na calçada de concreto letargo.
Voou passarinho na canção dele e eu vi passarinho voejar quando eu imitei o seu pipitar.
Fiquei magoada quando minhas asas se quebraram, passarinho.
Pena.
Vim me embora.
Ele não tinha ombros e braços. Ele não era, passarinho. Eu era.
E as asas que eram andejas, passarinho.
É tudo qual dizer, passarinho, voe, voe, me perdoe por eu não saber voar sem amar.
Postado por Babe Lavenère Bastos
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