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27.9.05

Do antiquário, velharias de aqui.

Espalho os livros pela casa, e não os leio senão em partes intercaladas, uns até o fim, outros não. Alguns ficam sobre a mesinha ao lado da cama para que, como que por osmose, quando os não leio mesmo assim os saiba. Outros estão nas prateleiras daquela estante, numa desordem qualquer. Outros estão pela sala, embaixo da mesa de centro, na mesa do computador, na do telefone. Tem aqueles que ocupam o banquinho do piano de minha avó, que já não existe mais (nem o piano, nem minha vó), lá na varanda, meu lugar, meu canto, no mundo. O dicionário perambula pelos cômodos da casa como se tivesse vontade própria. Ele vem atrás de mim. Os livros, eu mexo neles, leio aos pedaços, folheio, mudo de lugar, de modo que eles estão sempre atuais. Sempre fazem algum sentido. Talvez sejam eles que me signifiquem. Eles me escrevem, me folheiam, me mudam de lugar e por isso eu os desejo como a um amante. (Às vezes tenho a sensação exata de que a música é que me ouve, de que a poesia que me lê, de que as pinturas é que me imaginam, de que a estória de amor é que me chora ou rí ou sonha, que o conto de lascívia é que me erotiza, que tudo isso é que me pensa.)

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Eu perguntava: quando sentia isso? quando eu morro? quando foi que eu morrí pela primeira vez? foi quando ele me disse que não era ele. morro quando a luz se acende e as mariposas escapam pra dentro pelo buraco na parede que ele chama de janela. e o que ele dizia? porque sua voz era tão fria? a única coisa que entendí é que ele viu uma mariposa e que ela voava incessantemente. tinha uma caixa com flores verdes no chão, no canto da parede vazia do meu quarto. três vezes ele falou da mariposa, que ela esvoaçava e que era agoniante porque esse esvoaçar parecia com gestos, o resto que ele falava, falava, eu não entendia. então já não era ele, era só uma mariposa voando com seus gestos que eu não conseguia entender. olhei pras flores, peguei uma e coloquei no bolso, toda amassada, olhava a mariposa e não me lembro mais de nada.

Postado por Babe Lavenère Bastos

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17.9.05

Sinto saudade.
Saudade, saudade.
Feliz e com saudade.
Feliz porque eu amo, eis tudo.
Saudade de meus bem-quereres.
Minha irmã e meu colibri.
Vocês: porque não estão aqui comigo?
Absurdo.
Saudade.

Postado por Babe Lavenère Bastos

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12.9.05

Para os meus lindos olhos grandes, meu passarinho, minha boca, meu preto, meu bichinho, feliz ano novo!



- Minha arvorezinha, meu burrinho, minha mãe, meu irmão, meu país, meu Deus pequeno, meu estrangeirinho, meu pequeno lótus, minha conchinha, meu querido, minha plantinha, vai embora, deixa que eu me vista e eu me encontrarei com você na rua da Baume às oito. Por favor, não chegue depois das oito e quinze, porque estou com muita fome.

Ela quis fechar a porta de seu quarto atrás de Honoré, mas ele ainda disse:"pescoço!" e ela estendeu imediatamente seu pescoço com uma docilidade, uma prontidão exageradas que o fizeram estourar de rir:
- Mesmo que você quisesse, disse-lhe ele, há entre seu pescoço e minha boca, entre suas orelhas e meus bigodes, entre as suas mãos e as minhas, pequenas amizades particulares. Tenho certeza de que elas não terminariam mesmo se deixássemos de nos amar, da mesma forma que desde que briguei com minha prima Paule, não posso impedir meu criado de ir todas as noites conversar com sua camareira. É por si mesma e sem meu consentimento que minha boca vai até o seu pescoço.

Estavam agora a um passo do outro. De repente seus olhares se notaram e cada um tentou fixar nos olhos do outro a idéia de que se amavam; ela permaneceu um segundo assim, de pé, depois caiu em uma cadeira, sôfrega como se tivesse corrido. E se disseram quase ao mesmo tempo com uma exaltação séria, pronunciando intensamente com os lábios, como se para beijar:
- Meu amor!
Ela repetiu com tristeza e enfado, abanando a cabeça:
- Sim, meu amor.

Sabia que ele não podia resistir a esse pequeno movimento de cabeça, ele se jogou em seus braços beijando-a e lhe disse devagar: "Malvada!" e tão ternamente, que os olhos dela se umedeceram.

Sete e meia soaram. Ele partiu.

Voltando para casa, Honoré se repetia: "Minha mãe, meu irmão, meu país - deteve-se, - sim, meu país! Minha conchinha, minha arvorezinha," e não pôde se impedir de rir ao pronunciar essas palavras que haviam tão rapidamente se moldado ao uso deles, essas pequenas palavras que podem parecer vazias e que eles enchiam com um sentido infinito. Fiando-se sem reservas no gênio inventivo fecundo de seu amor, viram-se dotar pouco a pouco por parte dele de uma linguagem própria, como para um povo, de armas, jogos e leis.

Ao mesmo tempo em que se vestia para ir jantar, seu pensamento se suspendia sem esforço no instante em que iria revê-la, como um ginasta toca já o trapézio ainda distante em direção ao qual ele voa, ou como uma frase musical parece atingir o acorde que a revolverá e a aproxima dele, da distância toda que os separa, pela própria força do desejo que a promete e a atrai. Era assim que Honoré atravessava velozmente a vida havia um ano, apressando-se desde de manhã em direção à hora da tarde em que a veria. E seus dias na verdade não se compunham de doze ou quatorze horas diferentes, mas de quatro ou cinco meias horas, de sua espera e de sua lembrança.

(Trecho de O Fim do Ciúme, novela de Marcel Proust)

Postado por Babe Lavenère Bastos

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+ temp. Sussu