29.11.05
Postado por Babe Lavenère Bastos
Comentários:
26.11.05
[Retrógrado]
Vaga-Lume
Estou sozinha com a poeira da estrada. Respiro fundo mais solidão que é pra me acostumar com ela e sentir-lhe o alento. Estive contemplando o céu durante horas, dias, anos. As estrelas me olharam como se eu fosse uma flor pequenina e tola. A lua veio algumas vezes mostrar sua intimidade com a terra e eu era um animalzinho triste. Muitas coisas se passaram e eu fiquei aqui parada olhando, tentando entender. Vento vem, calor vai, chuva para as borboletas. Aninharam-se as pombas cinzentas, passou por mim um cão de olhar cabisbaixo e um cavalo sem dono. Cena de abandono. Quando o arco íris tomou meu tempo sorri e falei sozinha. Sentei numa pedra grande e boa, pedra generosa e maternal. Talvez de longe se ouvisse o acelerar do meu coração quando os carcarás pensaram que eu era uma ave morta. Nunca morri tanto. Sozinha. Quando não queria estar. Voltei para o mundo e esqueci na estrada o meu lenço de chorar e meus enfeites de alma (aqueles, dos quais te falei ao entardecer de um dia qualquer). Alma que não existia quando você chegou e que ficou na estrada no meio da poeira vermelha da terra viva. Não tenho lógica. Não tenho pai, não tenho mãe. Sou uma folha seca voando pelo vão da noite pura. Virgem. Ensolarada. Ramos de flores balançam em meus aforismos de menina. Os vermes comem a terra por baixo das tocas dos ratos. Só a borboleta voa e, ali, a folha muda, surda, funda, oriunda de uma árvore seca, retorcida, negra. Seca, seca. Um incêndio passou, deixou tudo seco, tudo aparentemente morto, mas amanhã vem o verdume, quando a chuva molhar as raízes todas, mães, vivas, absurdamente vivas. Corre o tempo. Passam as horas, modifica-se o espaço. Não ouço badaladas, não há igrejas. Não passa ninguém. É só o vento que me diz palavras de vento redemoinhando, hora misturadas, hora combinadas. Lembrei-me: vem, me tome como uma flor que se arranca da planta na beira da estrada e cheire meu perfume de antes. Aquele perfume. Acaricie minhas pétalas para que elas se tornem mais macias e brilhantes, mais intensas na cor e no olor. Ou me tome feito mulher, que se pronuncia, que te devora, que te aniquila e que te recria, sujo de desejos singelos, pervertidos segredos. Descubra meu nome e assombre a minha dor, reconheça-te em mim. Chame os vaga-lumes para que a noite seja respingada de luz. Não se aborreça se um dia eu lhe roubar o sono por horas a fio a te investigar os detalhes, as pequenas diferenças que existem de você entre todos os outros. Os poros da sua pele macia, nova, forte, minha. Os pelos. Os vincos da vida. As mãos, os riscos, as doces infantilidades. Quando eu espalhar o suor seu nas suas costas e nelas me encostar pra sentir-lhe a umidade, seja bom comigo. Quando eu cheirar a sua nuca e seus cabelos, e afagá-los como quem molha a mão na nascente de um rio, seja um rio perene. Me desfolho como seca árvore do cerrado. Esqueci. Ah, a poeira da estrada!
Postado por Babe Lavenère Bastos
Comentários:
25.11.05
"Tá na hora de acordar, sinhazinha..."
Postado por Babe Lavenère Bastos
Comentários:
22.11.05
Literatura boba!
Boba literatura, boba!
Feia e chata!
Cara-de-mamão!
Postado por Babe Lavenère Bastos
Comentários:
12.11.05
Quando me desfolho, enlevada, me despindo ao seu olhar,
O que procuro é o que vejo, fundo, que não sei que parte é de você.
Fundo, nos teus olhos, mais fundo que a retina, mais fundo que o nervo ótico,
Há algo que se move e que me chama.
Um homem que é a coisa mais linda, uma presença imaterial,
Mas muito viva, como outro você dentro de você,
Mais meu, embora oculto.
No fundo desses dois lagos profundos,
Grandes lagos negros, parados,
Lá no fundo há algo de indagação.
Tem uma coisa que se anima, que é inquieta,
E que objetivamente não pode sair deles, mas que salta,
E de alguma forma me envolve completamente.
Quero uma foto sua, sério,
Com esses lagos parados, calmos só na superfície,
Pra eu fazer da fotografia algo com minha imaginação.
Que eu possa recortar somente os olhos,
No silêncio da imagem, a face não.
Interpretar, fazê-los um pouco o que vejo, fazê-los os meus olhos, como se com eles eu pudesse ver.
E depois experimentar, na imagem, o silêncio dos olhos -
Somente a face, e na sombra silenciá-los de luz
Para imaginar o que há no que já não vejo.
Eles continuarão ali, memorizados, devaneando-me.
Esse enlevo que já antecipei,
No que ao fazer o que digo me tomará,
Me parece estranhamente e docemente eterno.
Postado por Babe Lavenère Bastos
Comentários:
|